Gerar para Distribuir: o Voto Tridimensional e o Sistema de Contrapoderes
Uma proposta para superar a polarização entre esquerda e direita no Brasil
Pai reflexivo
10/15/202617 min read
Introdução: a armadilha da polarização
O Brasil não precisa escolher entre esquerda e direita. Precisa escolher entre governos competentes e incompetentes, honestos e corruptos. Este artigo defende que a polarização esconde essas duas perguntas e propõe um modelo para trazê-las de volta ao centro do debate.
A divisão que vivemos tem nome técnico: polarização afetiva. Ela acontece quando o eleitor gosta do próprio grupo e rejeita intensamente o outro, mesmo sem discordar dele em tudo. Pesquisadores apontam que a maioria dos brasileiros evita as pontas do espectro ideológico, mas a hostilidade entre os campos continua crescendo.
As eleições de 2026 mostram o tamanho do problema. No Datafolha de setembro, 45% dos eleitores disseram que não votariam em Lula de jeito nenhum, e outros 45% disseram o mesmo de Flávio Bolsonaro (Congresso em Foco). O voto passa a ser decidido mais pela rejeição ao adversário do que pela avaliação de quem vai governar.
A proposta deste artigo tem duas metades que dependem uma da outra:
Um modelo econômico: o Estado só consegue ser social na distribuição se for capitalista e competente na geração de riqueza. Gerar para distribuir.
Um sistema de controle: esse modelo só sobrevive se houver mecanismos que filtrem a incompetência e a corrupção, independentemente do lado que governa.
A primeira metade diz o que fazer. A segunda diz como proteger o que foi feito. Separadas, falham. Juntas, formam uma proposta que não pertence nem à esquerda nem à direita.
Parte I — O voto tridimensional
Escolher um candidato só pela ideologia é votar com um único critério quando são necessários três. O eleitor deveria avaliar cada candidato em três eixos: ideologia, competência e integridade. Um candidato do seu lado, mas incompetente ou corrupto, deveria sair da lista, e o eleitor deveria procurar outra opção dentro do mesmo campo.
Não é o que acontece. O resultado é um sistema em que os dois grandes grupos políticos acumulam sinais de corrupção e de incompetência, e mesmo assim mantêm eleitores fiéis.
Competência e integridade não têm lado
A ciência política conhece esses dois critérios desde 1963. O pesquisador Donald Stokes os chamou de valence issues, ou questões de valência: temas em que todos concordam sobre o objetivo. Nenhum partido defende a corrupção; todos dizem combatê-la. A disputa real é sobre quem é capaz de entregar o que todos desejam (Wikipedia).
O discurso não basta. Um político pode passar 20 ou 30 anos com a mesma promessa de ajudar os mais pobres sem nunca tomar as medidas que resolveriam o problema. Da mesma forma, outro pode prometer liberdade econômica e prosperidade sem ter capacidade de gestão para produzi-las.
O eleitor sabe, mas vota mesmo assim
As pesquisas confirmam o erro. Num experimento italiano, os participantes declararam que a integridade era o atributo mais importante de um candidato. Mesmo assim, quando precisaram escolher, preferiram um corrupto que pensava como eles a um honesto com opiniões diferentes (Franchino e Zucchini).
No Brasil, o fenômeno tem nome popular: "rouba, mas faz". Um estudo com prefeitos de Pernambuco mostrou que a corrupção reduz a chance de reeleição, mas esse efeito desaparece quando o prefeito gasta mais em obras e serviços (Pereira e Melo). Uma pesquisa da UnB encontrou também o espelho dessa lógica, o "não faz, mas não rouba": o eleitor que tolera incompetência em troca de honestidade.
Os dois atalhos são armadilhas. O voto tridimensional exige as duas qualidades ao mesmo tempo. Integridade sem competência não governa; competência sem integridade governa para poucos.
Parte II — Capital não é capitalismo
O debate público trata socialismo e capitalismo como opostos, mas mistura duas coisas diferentes: o capital e o capitalismo. Nenhuma sociedade moderna funciona sem moeda, mercado, investimento e acumulação de capital. Essa é a base de qualquer economia contemporânea, inclusive das que se declaram socialistas.
Na definição acadêmica, a diferença entre os dois sistemas está em outro lugar: quem controla os meios de produção. No capitalismo, a maior parte deles é privada; no socialismo, a maior parte está sob controle social e democrático (Stanford Encyclopedia of Philosophy). A União Soviética usava dinheiro e acumulava capital, mas não era capitalista por essa definição.
O eixo real: como a riqueza é construída e repartida
Se o capital é comum a todos, a pergunta política relevante muda. Ela deixa de ser "capital ou não?" e passa a ser "como a riqueza gerada pelo capital é construída e repartida?". Nesse eixo, os polos são outros:
Individualismo: cada pessoa e cada empresa constrói a própria riqueza, e o Estado se limita a regular.
Socialização: a sociedade constrói a riqueza em conjunto, e uma parte dela é repartida para reduzir a distância entre o topo e a base.
Os dois polos usam o capital como arcabouço. A diferença está no destino do que é produzido.
Os sistemas reais são híbridos
Essa leitura tem apoio na literatura. O dinamarquês Pelle Dragsted, apoiado no sociólogo Erik Olin Wright, argumenta que capitalismo e socialismo não são totalidades que cobrem a economia inteira. As economias reais misturam setores de propriedade privada com cooperativas, empresas públicas e serviços universais (Jacobin).
Os países nórdicos são o exemplo mais claro. Neles, uma economia de mercado dinâmica convive com impostos altos e serviços universais, como saúde e educação (Nordic model). Chamar esses países de "socialistas" ou de "capitalistas" é usar uma régua que não mede o que importa.
Há uma ironia que reforça o argumento. Os nórdicos estão entre as sociedades mais individualistas do mundo. O Estado de bem-estar não esmaga o indivíduo; ele o liberta da dependência da família e do patrão. Socializar a base e libertar o indivíduo não são objetivos opostos.
De cima para baixo ou de baixo para cima
Direita e esquerda divergem menos sobre o objetivo, que é a prosperidade, do que sobre o ponto de partida. As duas lógicas têm uma parte de verdade e uma falha.
A lógica de cima para baixo
A visão associada à direita começa por quem detém o capital. Com mais liberdade econômica, os empresários investem, contratam e geram riqueza, que vai descendo até chegar à base.
O problema é o tempo. Numa sociedade com pobreza extrema, quem está na base não consegue esperar a riqueza chegar. E a evidência sobre o mecanismo é fraca. Um estudo da London School of Economics analisou 18 países ricos entre 1965 e 2015. Cinco anos depois de grandes cortes de impostos para os mais ricos, o PIB per capita e o desemprego eram praticamente iguais aos dos países que não cortaram (CBS News).
A lógica de baixo para cima
A visão associada à esquerda começa pela base: garantir dignidade e sobrevivência aos mais pobres para que eles possam produzir e prosperar. Ela responde à urgência que a primeira lógica ignora.
A falha aparece quando a única ferramenta é retirar riqueza do topo para distribuí-la embaixo, sem cuidar da geração de riqueza nova. Nesse caso, o bolo encolhe enquanto é repartido.
A evidência, porém, desmente o exagero de que redistribuir sempre leva ao colapso. Economistas do FMI encontraram pouca evidência de que a redistribuição fiscal prejudique o crescimento; em média, a redução da desigualdade acompanhou um crescimento mais alto e mais duradouro. A ressalva é que redistribuições muito grandes mostraram sinais mistos de efeitos negativos (Ostry, Berg e Tsangarides, FMI).
O problema está no desenho, não no programa
O debate sobre o Bolsa Família ilustra essa nuance. Até 2019, os estudos não encontravam efeito relevante do programa sobre a oferta de trabalho. Após a grande ampliação dos benefícios, um estudo do FGV Ibre encontrou queda no emprego formal entre os homens (FGV Ibre). O Ipea, por outro lado, mostrou que o emprego com carteira e a renda dos mais pobres cresceram entre 2019 e 2023, mesmo com o valor do programa multiplicado por quase cinco (Ipea).
O ponto mais sólido entre essas posições é a armadilha da formalidade: se aceitar um emprego formal significa perder o benefício, o trabalho precisa compensar essa perda. A solução não é cortar o programa, mas redesenhar a porta de saída para que trabalhar sempre valha mais a pena do que não trabalhar.
Gerar para distribuir: o Estado como gestor de excelência
A tese central deste artigo é simples: um Estado socialista precisa ser necessariamente capitalista, e um Estado capitalista precisa de gestão de excelência. Distribuir riqueza exige gerá-la primeiro, e a combinação ideal une responsabilidade fiscal, tradicionalmente associada à direita, com compromisso social, associado à esquerda.
O povo é a máquina
O Estado não é uma empresa. Ele não busca lucro nem pode escolher clientes ou abandonar quem não dá retorno. Mas também não é uma instituição de caridade que apenas distribui o que outros produzem.
Numa nação, o povo não é cliente nem investidor: o povo é a própria máquina. É ele quem trabalha, produz e gera a riqueza do país. Num motor, nenhuma engrenagem pode parar, e as mais desgastadas precisam de mais óleo. Por isso o objetivo do Estado não é o lucro, e sim o superávit com propósito: arrecadar e gerir bem o suficiente para investir no crescimento e cuidar de quem precisa, sem deixar nenhuma parte da máquina parar.
Noruega: o Estado investidor
A Noruega é o exemplo mais conhecido. O país transformou a renda do petróleo num fundo soberano que investe em empresas do mundo inteiro. Em meados de 2026, o fundo valia cerca de 2,3 trilhões de dólares, e mais da metade desse valor veio dos rendimentos dos investimentos (ScienceBlog).
O segredo não é o petróleo, é a regra. Desde 2001, o gasto do fundo fica limitado ao seu retorno real esperado, hoje estimado em 3% ao ano. Em 2026, cerca de 27% do orçamento do governo central deve ser financiado pelas transferências do fundo (Governo da Noruega). A regra vale para qualquer governo, de esquerda ou de direita, competente ou medíocre. O sistema não depende de um líder excepcional.
O fundo é um exemplo, não a única ferramenta. O que importa é o princípio: um Estado que pensa como investidor de longo prazo, e não apenas como arrecadador e distribuidor.
Singapura: o Estado que dirige
Singapura costuma ser citada como exemplo de liberalismo, mas é o contrário de um Estado mínimo. O governo é dono de quase toda a terra, e os fundos soberanos Temasek e GIC mantêm participações estratégicas nas grandes empresas do país (Atlantic Council). Singapura não prova que o mercado funciona sozinho; prova que um Estado competente pode agir como capitalista em nome de toda a sociedade.
Suécia: competência não tem lado
Nos anos 1990, a Suécia mergulhou numa crise fiscal grave. Quem fez o ajuste duro, cortando gastos e equilibrando as contas, foi um governo social-democrata. Depois, o país adotou regras fiscais rígidas que existem até hoje. A esquerda sueca fez o que no Brasil seria chamado de "política de direita", justamente para salvar o Estado de bem-estar.
A condição: um Estado capaz
Nada disso funciona sem um Estado competente e limpo. O cientista político Francis Fukuyama chama esse desafio de "chegar à Dinamarca". Para ele, uma democracia bem-sucedida combina três elementos: um Estado eficaz, o Estado de direito e a prestação de contas aos cidadãos (Carnegie Council). Outros autores reforçam a ideia por caminhos diferentes, como Mariana Mazzucato, com o Estado empreendedor; os fundadores alemães da economia social de mercado; e o brasileiro Luiz Carlos Bresser-Pereira, com o novo-desenvolvimentismo.
O caso brasileiro: a fórmula certa sem os filtros
O Brasil já testou a combinação de responsabilidade fiscal com compromisso social, e o resultado mostra por que o modelo econômico não basta sozinho.
A convergência que funcionou e depois quebrou
A partir de 1999, o governo Fernando Henrique Cardoso adotou o chamado tripé macroeconômico: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Em 2003, Lula manteve o tripé e, sobre ele, expandiu os programas sociais, com o Bolsa Família. Foi, literalmente, uma política econômica ortodoxa combinada com uma política social ambiciosa.
Por alguns anos a fórmula funcionou: a economia cresceu, a pobreza caiu e a dívida diminuiu em proporção ao PIB. Depois, a disciplina fiscal foi abandonada, veio a recessão de 2015 e 2016, e os escândalos do Mensalão e da Lava Jato revelaram corrupção sistêmica em estatais. A fórmula estava certa. Faltaram os filtros de competência e integridade.
Os fundos que existiram no papel
O Brasil também tentou imitar a Noruega. O Fundo Soberano do Brasil foi criado em 2008, com a descoberta do pré-sal, e extinto em 2018, quando seus recursos foram usados para pagar a dívida pública (Monitor Mercantil). O Fundo Social do pré-sal arrecadou um volume significativo de recursos entre 2012 e 2019, mas o dinheiro não chegou à educação nem à saúde, porque o governo nunca criou os dois órgãos de gestão previstos em lei (Unifesp). O instrumento existia. Faltaram governança e competência para operá-lo.
As regras que todos os lados furaram
O teto de gastos, criado em 2016 e escrito na Constituição, foi contornado repetidas vezes, por governos de direita e de esquerda:
Bolsonaro: PEC dos Precatórios - Abriu cerca de R$ 83 bilhões de espaço fiscal para 2022, ano eleitoral (InvestNews)
Bolsonaro: PEC "Kamikaze" - Ampliou o Auxílio Brasil e criou benefícios em pleno ano eleitoral (Folha Vitória)
Transição para Lula: PEC fura-teto - Liberou R$ 168,9 bilhões acima do teto e abriu caminho para substituí-lo (Gazeta do Povo)
Lula: Nova PEC dos Precatórios - Retirou os precatórios do limite de despesas a partir de 2026 (Money Times)
A lição é dupla. Primeiro, o problema não é de lado: os dois campos abandonaram a responsabilidade fiscal quando ela se tornou inconveniente. Segundo, uma regra que pode ser mudada pelos próprios governantes não protege ninguém.
A responsabilidade fiscal costuma ruir em três momentos: quando um governo incompetente herda contas saudáveis, quando uma crise econômica forte se impõe e, sobretudo, em anos de eleição. Disciplina é uma virtude, mas não pode ser escrita na lei. O que pode ser escrito na lei são os mecanismos de controle, e é deles que trata a próxima parte.
Parte III — O sistema de contrapoderes
Se o modelo econômico depende de competência e integridade, e se o eleitor sozinho não consegue garantir nenhuma das duas, a sociedade precisa de instituições que façam esse filtro de forma permanente. A proposta tem quatro mecanismos, que se reforçam mutuamente.
A câmera no dinheiro
Policiais usam câmeras corporais para que suas ações possam ser verificadas. O Congresso e o Executivo precisam do equivalente, mas apontado para o lugar certo. As votações já são públicas; o que costuma ficar escondido é o caminho do dinheiro.
A proposta é que cada real público seja rastreável, em tempo real, por qualquer cidadão, desde o pedido até o destino final. O Brasil já deu passos nessa direção. Depois que o STF declarou inconstitucional o chamado orçamento secreto, em 2022, as emendas parlamentares federais passaram a exigir a identificação de quem pediu e de quem recebeu os recursos. A partir de janeiro de 2026, as mesmas regras foram estendidas a estados e municípios (CNN Brasil).
Tecnologias como a blockchain podem ajudar, mas não resolvem tudo: um registro imutável de um contrato superfaturado apenas documenta o roubo para sempre. O essencial é o princípio, não a ferramenta.
Regras fiscais difíceis de mudar
A regra norueguesa funciona porque é estável e flexível ao mesmo tempo: permite gastar mais numa recessão e menos em tempos normais, mas mantém a mesma âncora de longo prazo. As regras fiscais brasileiras precisam de três travas: uma válvula de escape para crises, um custo político alto para alterá-las e a exigência de que qualquer mudança só valha para o mandato seguinte. Assim, nenhum governante muda a regra em benefício próprio.
A execução e a vigilância do orçamento podem caber a uma autoridade fiscal independente, com mandatos fixos, nos moldes da autonomia dada ao Banco Central em 2021. Mas a decisão sobre prioridades, como quanto vai para a saúde e quem paga mais imposto, continua com os representantes eleitos. Decidir prioridades é escolha de valores e pertence à democracia; executar e vigiar é técnica e pode ser protegida da política.
O contrapresidente
O segundo colocado na eleição presidencial assumiria automaticamente um cargo de fiscalização: o de contrapresidente. Seu trabalho seria acompanhar toda a gestão do vencedor, com acesso a contratos, pagamentos e agendas, e a obrigação de publicar relatórios periódicos. O mandato teria a mesma duração do presidencial, e ao final ele poderia concorrer novamente. Cada candidato saberia, desde a campanha, que perder em segundo lugar significa assumir esse papel.
A ideia tem antecedentes. A Colômbia garante, desde 2018, uma cadeira no Senado ao segundo colocado na eleição presidencial (Rádio Nacional). No Reino Unido, desde 1861, a comissão que fiscaliza as contas do governo é presidida, por tradição, pela oposição (Model Diplomat). A proposta junta as duas ideias: o derrotado recebe o cargo, e o cargo é de fiscalização.
O risco é que o fiscal use o posto como palanque. Por isso, o contrapresidente não teria imunidade especial nem poder de veto. Se for condenado por fazer, de má-fé, acusações que sabia serem falsas, ele responde como qualquer cidadão e perde o direito de disputar eleições. A punição mira a mentira deliberada, não a suspeita honesta que a investigação não confirmou, para que o medo não cale o fiscal.
O contracongresso sorteado
Para fiscalizar o Legislativo, a proposta usa a ferramenta mais antiga da democracia: o sorteio. Um conselho de cidadãos sorteados, representativo da população em idade, gênero, renda e região, faria auditorias em grupo sobre os gastos e as emendas do Congresso.
O modelo foi testado com sucesso na Irlanda. Uma assembleia de 99 cidadãos sorteados, organizada por uma secretaria independente, deliberou sobre o aborto, o tema mais divisivo do país. A assembleia votou 64% a favor da mudança, e o referendo nacional seguinte aprovou a mudança com 66,4% (UK Government Communication Service). O Brasil também já confia em cidadãos sorteados: é assim que funciona o Tribunal do Júri.
A França mostrou o limite. Seus 150 cidadãos sorteados para propor medidas climáticas receberam a promessa de que suas propostas seguiriam "sem filtro", mas só 12% entraram integralmente na lei (Paperjam). Por isso, no modelo proposto, um relatório aprovado por dois terços do conselho seguiria obrigatoriamente para investigação e para o Judiciário, sem possibilidade de arquivamento sem justificativa pública. O auditado teria direito de se defender antes da votação, e a equipe técnica de apoio seria independente do governo.
Quem decide quem é íntegro?
Os quatro mecanismos respondem à pergunta mais difícil deste debate. Numa sociedade polarizada, cada lado acusa o outro de corrupção. Ninguém, sozinho, tem autoridade para decidir. A resposta é dividir o trabalho, como num tribunal, onde o promotor não dá a sentença:
O adversário e os cidadãos sorteados investigam.
A Justiça julga.
O eleitor decide, agora com informação confiável na mesa.
É o princípio do contraditório aplicado ao governo.
Objeções e limites
Uma proposta séria precisa enfrentar suas próprias fraquezas. Quatro objeções merecem resposta.
"Por que não um líder forte que resolva tudo?"
É a tentação mais comum em países cansados da violência e da corrupção. El Salvador é o exemplo do momento: a segurança melhorou drasticamente, o turismo gerou mais de 3,6 bilhões de dólares em 2025 e a economia cresce (El Salvador in English).
O preço, porém, foi alto. O país vive sob estado de exceção desde 2022, com cerca de 92 mil presos, muitos sem acusação formal, e a Constituição foi alterada para permitir a reeleição indefinida do presidente (JusticeInfo). Antes disso, os juízes da Sala Constitucional foram destituídos e substituídos por aliados. Organizações de direitos humanos documentaram centenas de mortes sob custódia, e o governo nega as acusações.
A conclusão deste artigo é que El Salvador talvez ganhou na loteria, e loteria não é modelo. A combinação de competência e carisma numa só pessoa é rara e não sobrevive à troca de comando. Um sistema que depende de um líder excepcional é uma aposta. O caminho precisa ser construído pela lei.
"Tirar o orçamento dos políticos é tecnocracia"
A objeção é correta para a escolha de prioridades, e por isso a proposta não a retira dos eleitos. O que vai para órgãos independentes é a execução, a vigilância e a investigação. A autoridade fiscal não escolhe para onde vai o dinheiro; ela garante que ele chegue aonde os eleitos decidiram.
"O fiscal será perseguido ou usará o cargo como arma"
Os dois riscos existem. Sem proteção, o fiscal pode ser alvo de assédio judicial pelo governo que vigia. Com proteção demais, pode fabricar escândalos. A resposta está no equilíbrio já descrito: relatórios técnicos baseados em documentos ficam protegidos; acusações sabidamente falsas são punidas com rigor; processos contra o fiscal têm prazo curto para julgamento.
"O eleitor não vai mudar"
Transparência é necessária, mas não suficiente: o experimento italiano mostrou que eleitores informados ainda votam no corrupto que pensa como eles. A solução de fundo é a educação política, mas ela esbarra num círculo vicioso descrito pelos economistas Daron Acemoglu e James Robinson: boas políticas exigem eleitores informados, e eleitores informados exigem boas políticas.
Os mecanismos de contrapoder ajudam a romper esse círculo, porque não dependem de uma mudança prévia do eleitor. Eles produzem informação confiável e consequências institucionais, e assim educam pelo exemplo. A experiência irlandesa sugere esse efeito: boa parte dos eleitores do referendo conhecia a assembleia e sabia responder perguntas sobre ela (BroadAgenda).
O que há de novo nesta proposta
Quase todas as peças deste modelo já existem separadamente. A novidade está em como elas se encaixam.
Nos anos 1990, a chamada Terceira Via, formulada pelo sociólogo Anthony Giddens e aplicada por Tony Blair, Bill Clinton e Gerhard Schröder, já defendia combinar mercado eficiente com política social. O Brasil a praticou entre 2003 e 2010. Ela falhou em vários lugares pelo mesmo motivo: tratava o modelo econômico como suficiente e deixava a proteção do modelo por conta da boa vontade dos governantes.
Esta proposta acrescenta três elementos:
A ligação entre economia e voto. O filtro de competência e integridade não é um detalhe moral; é a pré-condição técnica do modelo econômico. Um eleitor que vota só pela ideologia torna o modelo impossível, seja qual for o lado vencedor.
Um sistema de contrapoderes que não depende de heróis. O contrapresidente, o contracongresso sorteado, a câmera no dinheiro e as regras fiscais protegidas formam uma estrutura que funciona com governantes comuns.
A divisão entre acusar, julgar e decidir. Ela responde à pergunta que paralisa o debate polarizado — quem decide quem é corrupto — sem entregar esse poder a ninguém sozinho.
O contrapresidente e o contracongresso sorteado, em particular, não aparecem combinados dessa forma nas experiências internacionais conhecidas. A Colômbia dá uma cadeira ao derrotado, o Reino Unido entrega a fiscalização à oposição e a Irlanda usa o sorteio para deliberar. Juntar os três num único sistema de fiscalização permanente é a contribuição original deste artigo.
Conclusão
O Brasil discute há décadas se o caminho é a esquerda ou a direita e, nesse tempo, assistiu aos dois lados repetirem os mesmos erros: abandonar a responsabilidade fiscal quando ela incomoda e tolerar a corrupção quando ela vem do próprio campo.
A saída proposta aqui não é um meio-termo morno entre os dois polos. É uma mudança de pergunta. Em vez de "de que lado você está?", o cidadão passa a perguntar: "esse governo gera riqueza, cuida de quem precisa, presta contas e pode ser fiscalizado?".
O modelo se resume em uma frase: gerar para distribuir, e vigiar para proteger. Um Estado só pode ser social se for capitalista e competente na geração de riqueza. E essa competência só sobrevive se houver um sistema em que o adversário investiga, a Justiça julga e o eleitor decide.
O povo é a máquina que produz a riqueza da nação. Cabe ao Estado mantê-la funcionando inteira, sem deixar nenhuma engrenagem parar, e cabe às instituições garantir que ninguém se aproprie do que pertence a todos.
Referências
Polarização e comportamento eleitoral
Congresso em Foco: a eleição de 2026 será decidida pela rejeição
Pereira e Melo: Reelecting corrupt incumbents in exchange for public goods (FGV)
Economia e modelos de Estado
Hope e Limberg: 50 anos de cortes de impostos para os ricos (CBS News)
Ostry, Berg e Tsangarides: Redistribution, Inequality, and Growth (FMI)
O caso brasileiro
Monitor Mercantil: Fundo Social do pré-sal e o fim do Fundo Soberano
CNN Brasil: transparência das emendas estaduais e municipais
Contrapoderes e democracia deliberativa
El Salvador


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